O Transtorno do Pânico caracteriza-se por crises recorrentes e inesperadas de ansiedade intensa associadas a sintomas físicos e cognitivos que frequentemente são vivenciados como ameaça iminente de morte, loucura ou perda de controle.
Embora os modelos biomédicos tenham contribuído significativamente para a compreensão de seus aspectos neurofisiológicos, a psicanálise contemporânea oferece uma perspectiva complementar ao investigar os conflitos emocionais, os traumas relacionais e as falhas de simbolização que participam da constituição do sofrimento.
O presente artigo discute o Transtorno do Pânico a partir das contribuições de Sigmund Freud, Sándor Ferenczi, Donald Winnicott, Wilfred Bion, Peter Fonagy, Allan Schore, Philip Bromberg, Thomas Ogden e Antonino Ferro.
Argumenta-se que as crises de pânico podem ser compreendidas como manifestações de estados emocionais que ultrapassam temporariamente a capacidade psíquica de elaboração, emergindo através do corpo e da ansiedade extrema.
A psicoterapia psicanalítica contemporânea constitui um importante recurso terapêutico para promover a simbolização do sofrimento, o fortalecimento da capacidade reflexiva e a integração da experiência subjetiva.
Introdução
O Transtorno do Pânico ocupa posição de destaque entre os transtornos ansiosos devido ao intenso sofrimento que produz e ao elevado impacto na qualidade de vida.
As crises de pânico caracterizam-se pelo surgimento abrupto de medo intenso acompanhado por sintomas físicos como taquicardia, sensação de falta de ar, tontura, tremores, sudorese, aperto no peito e sensação iminente de morte.
Embora os sintomas sejam reconhecidamente reais, exames clínicos frequentemente não identificam alterações orgânicas capazes de justificá-los. Essa aparente discrepância entre intensidade subjetiva e ausência de achados médicos contribui para angústia adicional e para a busca repetida por serviços de emergência.
A psicanálise contemporânea propõe que os ataques de pânico não sejam compreendidos apenas como eventos fisiológicos ou transtornos neuroquímicos, mas como expressões complexas de experiências emocionais que não encontraram adequada representação simbólica.
A experiência subjetiva do pânico
Uma característica marcante dos ataques de pânico é sua aparente imprevisibilidade. Muitos pacientes relatam que a primeira crise ocorreu em situações consideradas normais, como dirigir, participar de uma reunião, frequentar espaços públicos ou permanecer sozinho.
Entretanto, a investigação clínica frequentemente revela que essas crises emergem em momentos de importantes transformações emocionais, incluindo:
- Separações afetivas;
- Mudanças profissionais;
- Adoecimento de familiares;
- Perdas significativas;
- Conflitos conjugais;
- Experiências de vulnerabilidade ou fracasso.
Sob a perspectiva psicanalítica, o ataque de pânico não representa simplesmente uma reação desproporcional ao ambiente, mas a irrupção de estados emocionais que até então permaneciam insuficientemente elaborados.
Freud e os fundamentos da ansiedade
Freud foi pioneiro na formulação de uma teoria da ansiedade. Em Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926), propõe que a ansiedade funciona como um sinal emitido pelo ego diante da percepção de perigo.
Ao longo do desenvolvimento de sua teoria, Freud passa a compreender a ansiedade não apenas como consequência de conflitos pulsionais, mas como um mecanismo de alerta diante de experiências percebidas como ameaçadoras para a estabilidade psíquica.
No Transtorno do Pânico, essa perspectiva permite compreender as crises como momentos em que os mecanismos habituais de proteção deixam de funcionar adequadamente, produzindo um estado de inundação emocional e corporal.
Assim, o ataque de pânico pode ser entendido como uma forma extrema de sinalização de perigo diante de conteúdos emocionais que escapam às possibilidades usuais de elaboração.
Ferenczi e o desamparo traumático
As contribuições de Ferenczi são particularmente relevantes para a compreensão contemporânea do pânico.
Ao estudar pacientes traumatizados, Ferenczi observou que experiências de sofrimento se tornam especialmente devastadoras quando não encontram acolhimento, validação ou reconhecimento posterior.
Muitos pacientes com Transtorno do Pânico apresentam histórias marcadas por experiências emocionais de abandono, negligência, críticas excessivas ou contextos nos quais seus sentimentos foram sistematicamente invalidados.
Nessas circunstâncias, as crises podem representar a reativação de estados de desamparo primitivo experimentados anteriormente, mas nunca plenamente simbolizados.
O pânico deixa de ser apenas medo e passa a representar o retorno de experiências emocionais profundamente associadas à sensação de vulnerabilidade extrema.
Winnicott e o medo do colapso
Entre os autores psicanalíticos, Winnicott oferece uma das formulações mais próximas da experiência relatada por pacientes com pânico.
Em seu texto sobre o medo do colapso, o autor propõe que determinados indivíduos não temem algo que possa acontecer no futuro, mas sim a revivência de experiências primitivas de desorganização emocional já vividas anteriormente.
Durante os ataques de pânico, é comum que pacientes descrevam sensações compatíveis com aquilo que Winnicott chamou de angústias impensáveis:
- Sensação de aniquilação;
- Perda de identidade;
- Desintegração do self;
- Perda de continuidade da existência.
Sob essa perspectiva, a crise representa uma ameaça à própria coesão subjetiva.
Bion e a falha da função alfa
Wilfred Bion oferece uma compreensão particularmente sofisticada do pânico.
Segundo sua teoria, a mente necessita transformar experiências emocionais em elementos passíveis de pensamento através da função alfa.
Quando essa função falha, emoções excessivamente intensas não conseguem ser metabolizadas simbolicamente. A experiência deixa de ser pensada e passa a ser vivida diretamente através do corpo.
Nesse sentido, os sintomas físicos do pânico podem representar tentativas do organismo de expressar estados emocionais que ainda não encontraram representação mental adequada.
Fonagy e a ruptura da mentalização
Fonagy contribui para a compreensão do pânico através do conceito de mentalização.
Durante uma crise, a capacidade de compreender pensamentos, emoções e sensações corporais como estados internos sofre redução importante. O indivíduo deixa de perceber a taquicardia como manifestação de ansiedade e passa a interpretá-la como evidência concreta de morte iminente. O mesmo ocorre com tonturas, alterações respiratórias ou sensações de irrealidade.
O trabalho terapêutico busca restaurar a capacidade reflexiva, permitindo que emoções e sensações possam novamente ser compreendidas como experiências internas e não como ameaças externas concretas.
Schore e a neurobiologia do trauma
Allan Schore demonstra que experiências traumáticas precoces influenciam profundamente o desenvolvimento dos sistemas responsáveis pela regulação emocional.
Pacientes com pânico frequentemente apresentam respostas fisiológicas exacerbadas diante de situações emocionalmente desafiadoras. O organismo passa a responder como se estivesse diante de perigos reais, mesmo quando as ameaças são predominantemente subjetivas.
Essa compreensão reforça a importância da relação terapêutica como espaço regulador capaz de favorecer o desenvolvimento de novas formas de autorregulação emocional.
Bromberg, Ogden e Ferro: simbolizando o impensável
Durante as crises de pânico, diferentes estados emocionais podem emergir abruptamente, produzindo sensação de estranheza, despersonalização e perda de continuidade psíquica.
Bromberg compreende o trauma como responsável pela fragmentação da experiência subjetiva.
Thomas Ogden amplia essa compreensão por meio do conceito de “sonhos não sonhados”. Muitas experiências emocionais relacionadas à dependência, perda, rejeição e vulnerabilidade permanecem sem representação adequada.
Antonino Ferro acrescenta que o trabalho analítico consiste em transformar esses estados emocionais brutos em narrativas compartilháveis.
A construção de significado permite que aquilo que inicialmente aparece apenas como sintoma corporal possa ser integrado à história emocional do sujeito.
Vinhetas clínicas
Caso Mariana
Mariana, 38 anos, iniciou tratamento após sucessivas crises de pânico ocorridas após uma separação conjugal. Embora inicialmente insistisse que a ruptura não a afetara significativamente, o processo terapêutico revelou sentimentos profundos de abandono associados a experiências relacionais precoces. As crises surgiam especialmente em momentos de solidão e vulnerabilidade. A compreensão clínica permitiu conectar os sintomas físicos a estados emocionais anteriormente dissociados.
Caso Ricardo
Ricardo, 45 anos, executivo, desenvolveu crises recorrentes durante apresentações profissionais. O trabalho analítico revelou intensa organização da autoestima em torno do desempenho e do reconhecimento externo. Os ataques de pânico manifestavam-se principalmente quando situações profissionais despertavam sentimentos de risco de fracasso, medo de inadequação e vulnerabilidade frente ao novo. Ao longo do tratamento, tornou-se possível desenvolver formas mais elaboradas de lidar com tais experiências emocionais.
A contribuição da psicoterapia psicanalítica contemporânea no tratamento da Síndrome do Pânico
A psicoterapia psicanalítica contemporânea compreende que a crise de pânico não representa apenas um sintoma isolado a ser eliminado, mas uma manifestação complexa do sofrimento psíquico relacionada à história emocional do indivíduo, aos seus padrões relacionais e às suas formas de organização subjetiva.
Diferentemente de abordagens focadas exclusivamente na redução sintomática, a psicoterapia psicanalítica busca compreender a função psicológica das crises e os significados emocionais que elas expressam.
O tratamento investiga questões fundamentais:
- Quais experiências emocionais permanecem sem simbolização?
- Quais conflitos emergem nos momentos que antecedem as crises?
- Que experiências traumáticas primitivas continuam operando na vida psíquica atual?
- Quais formas de vulnerabilidade o sujeito encontra dificuldade de reconhecer?
A partir das contribuições de Ferenczi, a terapia oferece validação para experiências emocionais frequentemente marcadas por desamparo e incompreensão.
Com Winnicott, a relação terapêutica funciona como ambiente suficientemente seguro para que experiências antes percebidas como ameaçadoras possam ser exploradas sem precipitar novo colapso psíquico.
Fonagy demonstra que o fortalecimento da mentalização constitui elemento central do tratamento. O paciente aprende progressivamente a compreender suas emoções e sensações corporais como experiências internas passíveis de reflexão.
Inspirado em Bion, o processo terapêutico busca transformar estados emocionais caóticos em experiências pensáveis. Aquilo que antes era vivido apenas como terror corporal passa gradualmente a adquirir significado emocional.
Ogden e Ferro ampliam essa compreensão ao destacar que muitas crises estão associadas a experiências que permanecem sem representação narrativa adequada. A psicoterapia cria condições para que esses conteúdos possam finalmente ser pensados, narrados e integrados.
Sob a perspectiva de Schore, a própria relação terapêutica favorece novos padrões de regulação emocional. A experiência repetida de uma relação segura, estável e responsiva produz modificações profundas nos sistemas de regulação afetiva.
Bromberg acrescenta que o tratamento promove a integração de estados dissociados do self, reduzindo a necessidade de manifestações abruptas e desorganizadoras como os ataques de pânico.
Assim, o objetivo terapêutico ultrapassa a simples redução das crises. Busca-se ampliar a capacidade do indivíduo de reconhecer seus estados emocionais, tolerar afetos intensos, compreender suas experiências internas e desenvolver formas mais integradas de funcionamento psíquico.
A Psicóloga, Terapeuta Cognitiva Comportamental, Psicanalista Psicodinâmica Contemporânea e Neuropsicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida (CRP 06/41029) atende em plataforma segura como o Consultório Virtual Seguro® Casa dos Insights, plataforma de Telessaúde segura e criptografada, reafirma a importância do vínculo humano, da escuta qualificada e da proteção ética integral dos dados sensíveis dos clientes.
Se você ou alguém que conhece precisa de suporte, a Psicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida está disponível para atendimentos de avaliação neuropsicológica online para Autismo e TDAH em homens e mulheres e psicoterapia online. O primeiro passo para a saúde emocional é buscar ajuda especializada.
A psicanalista contemporânea e terapeuta cognitiva comportamental Psicóloga Marina Almeida realiza atendimentos online para todo o Brasil e exterior, com foco em escuta clínica de adultos neurodiversos e típicos.
Entre em contato por mensagem no WhatsApp 55(13) 991773793.
Considerações finais
A Síndrome do Pânico constitui um fenômeno complexo que envolve aspectos biológicos, emocionais e relacionais.
A psicanálise contemporânea permite compreender que as crises frequentemente expressam estados emocionais que ultrapassam temporariamente a capacidade de simbolização e regulação do indivíduo.
As contribuições de Freud, Ferenczi, Winnicott, Bion, Fonagy, Schore, Bromberg, Ogden e Ferro demonstram que o pânico está intimamente relacionado a experiências de desamparo, trauma relacional, falhas na mentalização e dificuldades de integração da experiência subjetiva.
Nesse contexto, a psicoterapia psicanalítica contemporânea oferece um espaço privilegiado para a transformação do terror sem palavras em experiência emocional pensável, favorecendo não apenas a redução dos sintomas, mas profundas mudanças na organização psíquica e na capacidade de enfrentar as vulnerabilidades inerentes à condição humana.
Referências
BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
BROMBERG, Philip M. Standing in the spaces: Essays on Clinical Process, Trauma and Dissociation. New York: Routledge, 2015.
FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In: FERENCZI, S. Obras completas. São Paulo: Martins Fontes, 1992. v. 4.
FERRO, Antonino. Psicanálise como literatura e terapia. Rio de Janeiro: Imago, 2011.
FONAGY, Peter; GERGELY, György; JURIST, Elliot; TARGET, Mary. Affect Regulation, Mentalization and the Development of the Self. New York: Other Press, 2002.
FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.
SCHORE, Allan N. The Science of the Art of Psychotherapy. New York: W. W. Norton, 2012.
WINNICOTT, Donald W. O medo do colapso e outros trabalhos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2005.
Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029
Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.
Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental
Entre em contato comigo somente por mensagem no WhatsApp (+55) 13 991773793 que minha secretária enviará as informações que precisar sobre Avaliação Neuropsicológica on-line, Psicoterapia on-line, Mentoria, Palestras e Consultoria.
Instagram:
@institutoinclusaobrasil
@psicologamarinaalmeida
@autismoemadultos_br