O abuso sexual contra adultos constitui um grave problema de saúde pública e de direitos humanos, produzindo impactos significativos sobre a saúde física, emocional, relacional e ocupacional das vítimas.
Embora frequentemente associado a agressões físicas explícitas, o fenômeno apresenta manifestações complexas que incluem coerção sexual, assédio sexual, violência psicológica, violência patrimonial, violência digital e abuso de poder em contextos profissionais e afetivos.
Dados recentes da Organização Mundial da Saúde indicam que aproximadamente uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física e/ou sexual ao longo da vida.
Este artigo analisa as consequências psicológicas do abuso sexual em adultos e discute as contribuições da psicoterapia psicanalítica de base contemporânea para o tratamento do trauma decorrente dessas experiências. São examinadas as contribuições de Freud, Ferenczi, Klein, Bion, Winnicott, Fonagy, Schore, Bromberg, Ogden, Ferro, Gabbard, Melman e Dunker.
A abordagem psicanalítica contemporânea oferece ferramentas importantes para a elaboração dos efeitos traumáticos, a reconstrução da identidade e a recuperação da capacidade de estabelecer vínculos seguros.
Introdução
O abuso sexual contra adultos permanece como uma das formas mais frequentes e subnotificadas de violência interpessoal. Tradicionalmente associado à violência física ou ao estupro, atualmente compreende-se que o fenômeno possui dimensões muito mais amplas, envolvendo comportamentos coercitivos, manipulação emocional, intimidação psicológica, exploração econômica e abuso de poder.
A Organização Mundial da Saúde informa que aproximadamente 31,6% das mulheres em todo o mundo, cerca de 840 milhões de pessoas, foram submetidas a violência física e/ou sexual praticada por parceiro íntimo ou por agressores não parceiros em algum momento da vida. Além disso, a OMS estima que cerca de 263 milhões de mulheres sofreram violência sexual cometida por pessoas que não eram seus parceiros íntimos.
No ambiente de trabalho, a Organização Internacional do Trabalho identificou que mais de um em cada cinco trabalhadores já vivenciou algum tipo de violência ou assédio laboral, incluindo violência psicológica, física e sexual.
Sob a perspectiva da saúde mental, o abuso sexual raramente se limita ao evento em si. Seus efeitos costumam repercutir sobre a autoestima, a sexualidade, a identidade, os relacionamentos interpessoais e a capacidade de confiar em outras pessoas.
Nesse contexto, a psicoterapia psicanalítica contemporânea oferece importantes contribuições para o tratamento das consequências emocionais decorrentes dessas experiências traumáticas.
Compreendendo o abuso sexual na contemporaneidade
A compreensão contemporânea da violência ampliou-se significativamente nas últimas décadas.
Atualmente, reconhece-se que a violência pode ocorrer por diferentes meios e assumir variadas formas. Atualmente, o direito brasileiro reconhece seis tipos principais de violência:
| Tipo de Violência | O que configura legalmente? | Exemplos Práticos |
| 1. Física | Qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal da pessoa. | Espancamento, empurrões, chutes, tapas, arremesso de objetos ou lesões corporais. |
| 2. Psicológica | Ações que causem dano emocional, diminuição da autoestima, limitação do direito de ir e vir ou controle de comportamentos. | Ameaças, humilhações, perseguição (stalking), chantagem, insultos e manipulação mental (gaslighting). |
| 3. Sexual | Condutas que forcem a vítima a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada mediante força ou coação. | Estupro, importunação sexual, assédio, forçar gravidez ou impedir o uso de métodos contraceptivos. |
| 4. Patrimonial | Retenção, subtração, destruição parcial ou total de bens, instrumentos de trabalho, documentos pessoais ou recursos financeiros. | Rasgar documentos, quebrar o celular da vítima, reter o salário ou controlar o dinheiro de forma abusiva. |
| 5. Moral | Condutas que ataquem a honra e a imagem da pessoa perante a sociedade. | Crimes de calúnia (acusar falsamente de crime), difamação e injúria (xingamentos), inclusive em redes sociais. |
| 6. Vicária | Atos de violência praticados contra filhos, familiares ou pessoas próximas para gerar sofrimento e controle sobre a vítima principal. | Agressões físicas ou ameaças direcionadas aos filhos, parentes, animais de estimação com o objetivo de torturar psicologicamente o parceiro. |
Fora do âmbito doméstico, a legislação e a jurisprudência também classificam a violência conforme a sua motivação e esfera social:
- Violência de Gênero: Agressões motivadas estritamente pela assimetria de poder entre gêneros (como o crime de Feminicídio).
- Violência Institucional: Praticada por agentes públicos em instituições (como hospitais, delegacias ou escolas) que causem constrangimento ou violação de direitos.
- Violência Digital: Crimes cibernéticos, vazamento não consensual de imagens íntimas (revenge porn) e linchamentos virtuais
Em muitos casos, essas formas de violência ocorrem simultaneamente, produzindo efeitos cumulativos sobre a saúde mental.
No ordenamento jurídico brasileiro, a tipificação legal mais clara, abrangente e detalhada sobre as formas de violência consta na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Embora o foco inicial da lei seja o contexto doméstico e familiar contra a mulher, esses conceitos servem de base para a compreensão e a punição da violência em termos gerais no Código Penal.
Se você ou alguém próximo estiver passando por essa situação, é fundamental registrar tudo:
- Grave e printe: Guarde mensagens de texto, áudios de WhatsApp, e-mails ou vídeos onde apareçam as ameaças contra o animal.
- Boletim de Ocorrência: O B.O. pode ser feito em uma Delegacia de Polícia comum, em uma Delegacia Eletrônica ou, idealmente, em uma Delegacia Especializada de Meio Ambiente / Proteção Animal ou Delegacia da Mulher (se houver contexto de violência doméstica).
- Denúncia Anônima: Se preferir não se identificar imediatamente para denunciar maus-tratados, pode ligar para o Disque 181 (nacional) ou utilizar canais locais de denúncia de crimes ambientais.
Freud e o trauma da invasão psíquica
Desde os primeiros textos psicanalíticos, Sigmund Freud reconheceu a importância das experiências traumáticas no desenvolvimento do sofrimento emocional.
Embora suas formulações tenham evoluído ao longo do tempo, Freud demonstrou que determinadas experiências ultrapassam a capacidade do aparelho psíquico de processar os estímulos recebidos.
Em Além do Princípio do Prazer (1920), descreveu como acontecimentos traumáticos tendem a retornar por meio de lembranças intrusivas, sonhos, sintomas e repetições inconscientes.
No abuso sexual, a vítima frequentemente experimenta uma sensação de invasão não apenas do corpo, mas também dos limites psíquicos. A experiência pode permanecer parcialmente não elaborada, surgindo posteriormente sob a forma de ansiedade, culpa, vergonha, dificuldades sexuais ou sintomas traumáticos.
Ferenczi e o trauma do desmentido
Sándor Ferenczi é considerado um dos autores mais importantes para a compreensão clínica do trauma.
Segundo Ferenczi, os efeitos traumáticos tendem a ser agravados quando a vítima encontra descrédito, negação ou minimização de seu sofrimento. O autor denominou esse fenômeno de “desmentido traumático”.
Imagine uma situação fictícia em que uma mulher relata assédio sexual praticado por um superior hierárquico e recebe como resposta comentários como: “Você está exagerando” ou “Deve ter entendido errado”.
Sob a perspectiva ferencziana, essa invalidação representa uma segunda violência, muitas vezes tão devastadora quanto a agressão inicial.
Klein e a internalização de objetos persecutórios
Melanie Klein contribuiu para compreender como experiências traumáticas influenciam o mundo interno do indivíduo.
Após situações de abuso, muitas vítimas passam a perceber os relacionamentos através de lentes marcadas por medo, desconfiança e expectativa de agressão.
Em termos kleinianos, figuras abusivas podem ser internalizadas como objetos persecutórios, influenciando futuros relacionamentos amorosos, profissionais e familiares.
Essa dinâmica ajuda a explicar dificuldades frequentes observadas em sobreviventes de violência sexual, como hipervigilância, medo da intimidade e dificuldades de confiar em outras pessoas.
Bion e a incapacidade de pensar o trauma
Wilfred Bion propõe que experiências emocionais precisam ser transformadas em pensamentos para serem elaboradas. Quando o trauma é excessivamente intenso, essa transformação pode falhar. A vítima passa então a experimentar emoções avassaladoras que não conseguem ser adequadamente simbolizadas.
Muitas pessoas sobreviventes de abuso sexual relatam sensação de “não encontrar palavras” para descrever o ocorrido.
Do ponto de vista bioniano, isso indica uma falha temporária dos processos de simbolização diante da intensidade emocional do trauma.
Winnicott e a violação da sensação de segurança
Donald Winnicott enfatizou a importância da segurança emocional para o desenvolvimento saudável. Experiências de abuso frequentemente produzem rupturas profundas na sensação de confiança básica.
Imagine um caso fictício em que uma mulher sofre abuso sexual praticado por alguém com quem mantinha uma relação afetiva de confiança. Nessas circunstâncias, não apenas o corpo é violado, mas também a crença de que os relacionamentos podem ser seguros.
O trauma frequentemente produz aquilo que Winnicott descreve como quebra na continuidade do ser.
Exemplos contemporâneos de experiências traumáticas
- Assédio sexual corporativo
Uma funcionária recebe convites insistentes de um supervisor. Após recusá-los repetidamente, começa a sofrer prejuízos profissionais. Embora não exista contato físico, a coerção baseada na hierarquia produz intenso sofrimento emocional. Gabbard e Ferenczi permitiriam compreender esse fenômeno como uma combinação de abuso de poder, humilhação e invasão dos limites subjetivos.
- Violência digital e divulgação de imagens íntimas
Imagine o caso fictício de Camila, que compartilha imagens íntimas com seu companheiro durante um relacionamento. Após o término, ele divulga as imagens em redes sociais. Mesmo sem contato físico, a experiência produz vergonha intensa, depressão, isolamento social e sintomas traumáticos prolongados. Schore enfatizaria os efeitos devastadores da vergonha sobre a regulação emocional, enquanto Ogden compreenderia tal experiência como um acontecimento que inicialmente não encontra representação simbólica suficiente.
- Violência patrimonial associada ao abuso psicológico
Em outro exemplo hipotético, uma mulher tem acesso a seus recursos financeiros sistematicamente controlado pelo parceiro. Ela perde autonomia, tem suas despesas monitoradas e é ameaçada caso tente deixar o relacionamento.
Embora não haja agressão física, o controle econômico torna-se uma ferramenta de dominação psicológica. Dunker e Melman permitiriam compreender como essas formas contemporâneas de violência afetam profundamente a construção da autonomia subjetiva.
Consequências psicológicas do abuso sexual
As consequências variam conforme a história de vida, recursos psíquicos disponíveis, suporte médico, psicológico e social recebido. Entre as manifestações mais frequentes encontram-se:
- Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT);
- Transtorno de Ansiedade Generalizada;
- Ansiedade Social;
- Depressão;
- Sentimentos persistentes de vergonha;
- Culpa excessiva;
- Dissociação;
- Alterações da sexualidade;
- Baixa autoestima;
- Autolesão;
- Dependência química;
- Dificuldades relacionais;
- Pensamentos suicidas.
A OMS destaca que mulheres, pessoas neurodiversas e pessoas LGBTQIAP+ expostas à violência apresentam risco aumentado para depressão, problemas de saúde sexual e reprodutiva e outros agravos físicos e psicológicos.
Fonagy, Schore e a regulação emocional
Peter Fonagy destaca que o trauma pode comprometer a capacidade de mentalização, isto é, a habilidade de compreender estados mentais próprios e alheios. Após uma experiência abusiva, emoções intensas frequentemente tornam-se difíceis de compreender e regular.
Allan Schore acrescenta que o trauma afeta diretamente os sistemas neurobiológicos responsáveis pela regulação emocional. Consequentemente, sobreviventes de abuso sexual podem experimentar hipervigilância, ansiedade persistente, crises emocionais e dificuldades para estabelecer vínculos seguros.
Bromberg, Ogden e Ferro: simbolizando o indizível
Philip Bromberg descreve que o trauma frequentemente produz fragmentação da experiência subjetiva. Partes da experiência permanecem dissociadas porque são emocionalmente dolorosas demais para serem integradas.
Thomas Ogden propõe que essas vivências constituem “experiências não sonhadas”, que ainda não encontraram formas de representação psíquica.
Antonino Ferro enfatiza que o tratamento consiste em transformar experiências emocionais fragmentadas em narrativas passíveis de simbolização. A construção de significado torna-se um dos processos centrais da recuperação psicológica.
A contribuição da psicoterapia psicanalítica contemporânea
A psicoterapia psicanalítica contemporânea online não se limita à redução dos sintomas.
Seu objetivo principal consiste em possibilitar que experiências traumáticas possam ser progressivamente simbolizadas, compreendidas e integradas à história do indivíduo. A relação terapêutica oferece:
- Segurança emocional;
- Acolhimento sem julgamento;
- Reconstrução da confiança;
- Desenvolvimento da mentalização;
- Elaboração da vergonha e da culpa;
- Integração de aspectos dissociados da personalidade;
- Fortalecimento da autonomia subjetiva.
A partir das contribuições de Freud, Ferenczi, Klein, Bion, Winnicott, Fonagy, Schore, Bromberg, Ogden, Ferro, Gabbard, Melman e Dunker, compreende-se que o tratamento do trauma não consiste apenas em recordar o ocorrido, mas em transformar uma experiência de sofrimento em algo que possa ser pensado, sentido e elaborado.
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Considerações finais
O abuso sexual em adultos constitui um fenômeno complexo e multifacetado que transcende a violência física. Atualmente, inclui formas de coerção sexual, violência psicológica, violência patrimonial, assédio moral, assédio sexual e violência digital.
Dados internacionais demonstram que a violência contra mulheres permanece uma crise global de saúde pública, afetando aproximadamente uma em cada três mulheres ao longo da vida. Além disso, mais de um quinto dos trabalhadores relata experiências de violência ou assédio no trabalho.
As contribuições da psicanálise contemporânea permitem compreender que os efeitos do abuso atingem profundamente a identidade, a autoestima, os vínculos afetivos e a capacidade de confiar.
Nesse contexto, a psicoterapia psicanalítica de base contemporânea online representa uma importante ferramenta de tratamento, oferecendo um espaço privilegiado para a elaboração do trauma, a reconstrução da subjetividade e a recuperação da liberdade emocional e relacional.
Referências
BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
BROMBERG, Philip M. Standing in the Spaces: Essays on Clinical Process, Trauma and Dissociation. New York: Routledge, 2015.
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FERRO, Antonino. Psicanálise como literatura e terapia. Rio de Janeiro: Imago, 2011.
FONAGY, Peter; GERGELY, György; JURIST, Elliot; TARGET, Mary. Affect Regulation, Mentalization and the Development of the Self. New York: Other Press, 2002.
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GABBARD, Glen O. Psiquiatria psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2016.
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MELMAN, Charles. O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003.
OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.
SCHORE, Allan N. The Science of the Art of Psychotherapy. New York: W. W. Norton, 2012.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Violence against women: fact sheet. Geneva: WHO, 2026.
Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029
Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.
Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental
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