DIAGNÓSTICO TARDIO DO AUTISMO: SAÚDE MENTAL, RELACIONAMENTOS, EMPREGABILIDADE E O MODELO DA DUPLA EMPATIA

Nas últimas décadas, pesquisadores têm observado um número crescente de adultos recebendo diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) apenas na adolescência tardia ou na vida adulta. Embora o diagnóstico tardio frequentemente produza sentimentos de alívio, validação e autocompreensão, ele também está associado a importantes repercussões psicológicas acumuladas ao longo da vida.

Muitos adultos autistas crescem sem explicações para suas diferenças sociais, sensoriais e emocionais. Frequentemente são rotulados como “estranhos”, “difíceis”, “preguiçosos”, “frios”, “sensíveis demais” ou “desinteressados”. Essa experiência contínua de inadequação pode contribuir para a formação de uma autoimagem negativa e para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos secundários.

Diversos estudos demonstram taxas elevadas de ansiedade e depressão em adultos autistas, especialmente naqueles que passaram anos tentando se adequar a expectativas sociais incompatíveis com seu funcionamento neurológico. O esforço contínuo de mascaramento social, associado a experiências repetidas de rejeição, bullying, fracassos ocupacionais e incompreensão familiar, constitui um importante fator de sofrimento psicológico.

Além disso, pesquisas recentes apontam que pessoas autistas apresentam risco significativamente aumentado para ideação suicida, comportamento suicida e autolesão quando comparadas à população geral. Esse risco parece estar relacionado não ao autismo em si, mas à combinação de fatores como isolamento social, ausência de suporte especializado, exaustão decorrente da camuflagem social, desemprego, dificuldades de pertencimento e diagnóstico tardio.

Exemplo fictício

Roberto, 45 anos, recebeu diagnóstico de TEA após décadas de tratamento para ansiedade e depressão. Durante a avaliação neuropsicológica relatou sentir-se “estranho ou defeituoso” desde a adolescência por não compreender as regras sociais que pareciam naturais para outras pessoas. O diagnóstico permitiu reinterpretar sua trajetória sob uma perspectiva de neurodiversidade, reduzindo sentimento de culpa e promovendo maior aceitação de suas características.

Desemprego e Subemprego em Adultos Autistas

As dificuldades enfrentadas por adultos autistas no mercado de trabalho representam uma das maiores barreiras à inclusão social e à autonomia financeira.

Embora muitos possuam elevados níveis de qualificação profissional, conhecimento técnico aprofundado e notável capacidade de concentração, frequentemente encontram obstáculos em etapas que dependem de habilidades sociais convencionais.

Processos seletivos tradicionais valorizam aspectos como comunicação espontânea, linguagem corporal, contato visual e capacidade de improvisação em entrevistas. Tais critérios podem desfavorecer candidatos autistas, mesmo quando estes apresentam excelente competência técnica para a função.

Além disso, muitos ambientes laborais foram historicamente estruturados com base em normas sociais neurotípicas, incluindo reuniões frequentes, interações informais obrigatórias, espaços abertos com elevado estímulo sensorial e expectativas implícitas que nem sempre são claramente comunicadas.

Consequentemente, diversos adultos autistas experimentam:

  • Desemprego prolongado;
  • Subemprego;
  • Rotatividade profissional elevada;
  • Burnout ocupacional;
  • Dificuldades de progressão na carreira.

Paradoxalmente, empresas que implementam estratégias de neuroinclusão frequentemente relatam benefícios significativos decorrentes da contratação de profissionais autistas, incluindo maior precisão técnica, criatividade, atenção a detalhes, confiabilidade e pensamento inovador.

Exemplo fictício

Patrícia, engenheira de dados de 37 anos, autista, possuía excelente desempenho técnico, mas perdeu diversas oportunidades profissionais devido à dificuldade em entrevistas altamente baseadas em interação social. Após ingressar em uma empresa com programa de neurodiversidade, recebeu adaptações simples, como instruções objetivas e espaço de trabalho com menor sobrecarga sensorial, passando a ocupar posição de liderança técnica.

O Problema da Dupla Empatia

Tradicionalmente, as dificuldades sociais observadas no autismo foram interpretadas como déficits exclusivamente presentes na pessoa autista.

Entretanto, nas últimas décadas essa compreensão tem sido questionada por pesquisadores da neurodiversidade.

Em 2012, Damian Milton propôs o conceito conhecido como Double Empathy Problem (Problema da Dupla Empatia). Segundo esse modelo, as dificuldades de comunicação entre autistas e não autistas não decorrem apenas de déficits individuais do autista, mas de diferenças mútuas na forma de perceber, interpretar e compartilhar experiências sociais.

Sob essa perspectiva, a comunicação pode se tornar igualmente difícil para ambas as partes quando pertencem a grupos neurológicos com formas distintas de processamento social. Em outras palavras, não se trata apenas de uma falha do autista em compreender os neurotípicos, mas também de uma dificuldade dos neurotípicos em compreender as experiências e formas de comunicação autistas.

Essa abordagem representa uma mudança paradigmática importante, deslocando o foco de uma visão centrada no déficit para uma compreensão baseada nas diferenças neurocognitivas.

Exemplo fictício

Durante reuniões de equipe, Marcelo, 35 anos, autista, costumava fornecer respostas extremamente objetivas e técnicas. Seus colegas interpretavam esse comportamento como rispidez e imposição de suas ideias. No entanto, Marcelo acreditava estar sendo eficiente e respeitoso ao evitar ambiguidades. A dificuldade não estava exclusivamente em Marcelo ou na equipe, mas na diferença entre dois estilos de comunicação por dificuldades da dupla empatia.

O conceito da dupla empatia contribui para a construção de práticas mais inclusivas, incentivando adaptações recíprocas na comunicação e reconhecendo que a responsabilidade pelas interações sociais não deve recair exclusivamente sobre a pessoa autista.

Implicações para a Avaliação Neuropsicológica

A compreensão contemporânea do autismo exige que a avaliação neuropsicológica vá além da identificação de déficits.

O processo avaliativo deve contemplar os fatores ambientais, culturais e relacionais que influenciam a manifestação das dificuldades observadas.

Nesse contexto, torna-se fundamental investigar:

  • Histórico de mascaramento social;
  • Experiências de rejeição e exclusão;
  • Impactos do diagnóstico tardio;
  • Funcionamento ocupacional;
  • Vivências sensoriais;
  • Fatores de proteção para saúde mental;
  • Redes de apoio social;
  • Potencialidades e interesses especiais.

Essa abordagem amplia a validade clínica da avaliação, permitindo recomendações mais individualizadas e alinhadas aos princípios da neurodiversidade e dos direitos humanos.

A Psicóloga, Terapeuta Cognitiva Comportamental, Psicanalista Psicodinâmica Contemporânea e Neuropsicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida (CRP 06/41029) atende em plataforma segura como o Consultório Virtual Seguro® Casa dos Insights, plataforma de Telessaúde segura e criptografada, reafirma a importância do vínculo humano, da escuta qualificada e da proteção ética integral dos dados sensíveis dos clientes.

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Referências

CAGE, Eilidh; TROXLER-WOOLF, Zoe. Understanding the reasons, contexts and costs of camouflaging for autistic adults. Journal of Autism and Developmental Disorders, New York, v. 49, n. 5, p. 1899-1911, 2019.

CASSIDY, Sarah et al. Risk markers for suicidality in autistic adults. Molecular Autism, London, v. 9, n. 42, 2018.

HIRVIKOSKI, Tatja et al. Premature mortality in autism spectrum disorder. British Journal of Psychiatry, Cambridge, v. 208, n. 3, p. 232-238, 2016.

MILTON, Damian. On the ontological status of autism: the double empathy problem. Disability & Society, London, v. 27, n. 6, p. 883-887, 2012.

PELLICANO, Elizabeth; DEN HOUTING, Jac. Annual research review: shifting from normal science to neurodiversity in autism science. Journal of Child Psychology and Psychiatry, Oxford, v. 63, n. 4, p. 381-396, 2022.

TANTAM, Digby. The challenge of adults with Asperger syndrome. Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America, Philadelphia, v. 12, n. 1, p. 143-163, 2003.

WEISS, Jonathan A.; FARDELLA, Melissa A. Victimization and perpetration experiences of adults with autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, New York, v. 48, n. 11, p. 3610-3620, 2018.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental

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