A FILOSOFIA DE VIDA SWINGER OU LIBERAL E AS FRONTEIRAS DA MONOGAMIA NA CONTEMPORANEIDADE

Este artigo investiga as dimensões filosóficas, sociológicas e psicanalíticas que fundamentam o estilo de vida swinger e as práticas liberais entre casais na sociedade contemporânea.

Longe de análises moralistas, o estudo busca compreender os mecanismos culturais e a demanda sexual que impulsionam o afrouxamento das amarras monogâmicas tradicionais.

Utiliza-se como recurso analítico o filme “O Convite” (The Invite, 2026), dirigido por Olivia Wilde, que ilustra o choque de alteridade entre a rotina monogâmica desgastada e a liberdade sexual coletiva.

O artigo examina os conceitos de conjugalidade sob a ótica da sociologia de Zygmunt Bauman e da psicanálise freudiana e lacaniana, pontuando a ocorrência de sofrimento psíquico decorrente das pressões de performance, ciúme e falhas de contratualidade.

Conclui-se analisando como a psicanálise pode atuar clinicamente no acolhimento e na sustentação da angústia desses sujeitos, validando a autonomia de seus arranjos de desejo.

Introdução

A contemporaneidade testemunha uma revisão sistemática das instituições sociais que outrora estruturavam de forma rígida a intimidade e a vida privada.

Entre as transformações mais significativas destaca-se a ascensão e a visibilidade de estilos de vida não monogâmicos, com ênfase no swing e em práticas liberais.

O modelo tradicional de exclusividade afetivo-sexual, embora ainda hegemônico, passa a coexistir com contratos relacionais flexíveis que propõem a dissociação entre amor e posse.

Embora frequentemente reduzido a estereótipos, trata-se de um fenômeno complexo que envolve subjetividade, desejo, ética relacional, cultura, sociologia e transformações profundas na forma como adultos lidam com intimidade.

O objetivo deste artigo é analisar em profundidade as bases conceituais desse movimento, afastando-se de julgamentos de valor ou patologizações prévias.

Pretende-se mapear as demandas afetivas e pulsionais que sustentam essa filosofia de vida, utilizando o cinema contemporâneo especificamente a comédia dramática sexual O Convite (2026), como um espelho das tensões atuais entre o desgaste da rotina conjugal e a atração pelo reprimido.

Por fim, busca-se investigar o limiar onde a liberdade liberal se depara com o sofrimento e de que forma a abordagem psicanalítica pode oferecer suporte ao sofrimento desses sujeitos.

Perspectiva Sociológica e a Demanda Sexual Contemporânea

Do ponto de vista sociológico, a filosofia liberal desdobra-se como um reflexo daquilo que Zygmunt Bauman conceitua como a fragilização dos laços e o imperativo da autonomia individual.

Na modernidade líquida, os indivíduos buscam a satisfação imediata de seus desejos de forma simultânea à necessidade de segurança afetiva.

O swing ou práticas liberais surge como uma tentativa de solução de compromisso: preserva-se o núcleo estável da parceria (o casamento, a cumplicidade doméstica) enquanto se terceiriza ou se expande a busca pelo prazer erótico e pela novidade sensorial no mercado dos corpos.

O movimento swinger e liberal não é apenas uma prática sexual é uma filosofia de vida. Ele emerge em um contexto cultural marcado por:

  • Flexibilização dos modelos de relacionamento
  • Questionamento da monogamia tradicional
  • Busca por autenticidade e liberdade
  • Valorização da autonomia sexual
  • Expansão das possibilidades afetivas
  • Influência da cultura digital e das redes sociais

A monogamia, historicamente, foi estruturada como modelo único. O movimento liberal questiona essa exclusividade e propõe:

  • Pluralidade de vínculos
  • Multiplicidade de experiências
  • Redefinição da fidelidade
  • Separação entre exclusividade afetiva e exclusividade sexual

Muitos sujeitos encontram no movimento:

  • Acolhimento
  • Pertencimento
  • Liberdade de expressão
  • Espaço para desejos antes silenciados e reprimidos

A filosofia liberal é também uma comunidade de valores.

Pesquisas internacionais indicam que:

  • 18% dos adultos já vivenciaram algum tipo de relação consensualmente não monogâmica (Kinsey Institute, 2024)
  • 32% afirmam curiosidade sobre modelos não monogâmicos
  • 41% descrevem a monogamia como “ideal, mas difícil de sustentar”

O movimento swinger e liberal surge como resposta cultural à tensão entre desejo, liberdade e tradição.

Essa demanda sexual contemporânea é impulsionada pela cultura do consumo e pela estetização da vida íntima.

Bauman descreve a modernidade líquida como um período de flexibilização das estruturas sociais. O movimento liberal é expressão dessa liquidez. Os vínculos tornam-se:

  • Negociáveis
  • Adaptáveis
  • Personalizados

Foucault descreve a sexualidade como espaço de resistência às normas. O movimento liberal encarna essa resistência ao propor:

  • Autonomia corporal
  • Crítica às moralidades rígidas
  • Liberdade de desejo
  • Pluralidade de vínculos

O movimento se fortalece na cultura digital, que legitima pluralidades. A internet ampliou:

  • Comunidades
  • Discursos
  • Espaços de encontro
  • Narrativas sobre sexualidade

Longe de ser apenas uma busca por sexo descompromissado, a filosofia liberal frequentemente se reveste de um discurso ético baseado em três pilares fundamentais:

  • Transparência Radical: A premissa de que a verdade e a revelação do desejo recíproco fortalecem a confiança.
  • Consensualidade Rígida: O estabelecimento de regras estritas de segurança, limites corporais e consentimento mútuo pré-estabelecido.
  • Diferenciação entre Afeto e Sexo: A capacidade cognitiva e emocional alegada de separar o investimento amoroso e o vínculo existencial com o parceiro fixo da pura descarga pulsional e lúdica compartilhada com terceiros.

Dinâmicas Operacionais e Práticas do Movimento Liberal

Para compreender a dimensão fenomenológica do swing, faz-se necessário inventariar as práticas concretas que delimitam esse estilo de vida, as quais ocorrem em ambientes controlados, com taxas de tickets elevados, como clubes privados, festas temáticas (hotéis e resorts liberais) e plataformas digitais especializadas. As interações sexuais consensuais estruturam-se em níveis progressivos de abertura, negociados rigorosamente de forma prévia pelo casal:

  • Soft Swing (Troca Parcial): Prática na qual ocorrem interações eróticas (toques, masturbação, sexo oral ou petting) com terceiros, porém a penetração sexual permanece restrita ao casal de base.
  • Full Swap (Troca Total): Modalidade em que há a consumação do ato sexual completo com penetração entre os parceiros trocados, podendo ocorrer no mesmo ambiente visual (same room) ou em quartos separados (separate rooms).
  • Gangbang e Grupos de Voyeurismo: Práticas de interações simultâneas envolvendo múltiplos parceiros, onde o prazer está fortemente indexado à partilha de fantasias escópicas (o ver e o ser visto).

O Lugar da Mulher no Swing: Emancipação ou Objetificação do Corpo?

A inserção e a centralidade da figura feminina no universo liberal despertam intensos debates nas ciências humanas, situando-se em uma zona de fronteira entre a agência soberana e a reprodução de opressões estruturais.

O pensamento feminista contemporâneo oferece chaves teóricas ambivalentes para interpretar se essa prática representa uma ruptura libertadora ou uma reiteração da opressão de gênero.

Por um lado, teóricas do chamado feminismo pró-sexo (sex-positive feminism), como Janet Hardy e Dossie Easton (2012) em sua obra pioneira sobre a não monogamia ética, argumentam que o movimento liberal oferece uma arena legítima de emancipação do desejo feminino.

Historicamente enclausurada pela moral patriarcal tradicional que tolera veladamente a infidelidade masculina enquanto pune e higieniza o erotismo das mulheres, a mulher encontra no swing a validação social de sua potência sexual.

Sob essa ótica, ela assume a soberania sobre o próprio corpo, escolhendo ativamente seus parceiros de prazer sem o estigma da promiscuidade. Desfaz-se a dicotomia patriarcal entre a “santa” e a “prostituta”, permitindo à mulher habitar o espaço do sujeito desejante, e não meramente do objeto desejado.

Por outro lado, correntes do feminismo crítico e radical acendem um alerta sobre o risco de uma sutil objetificação e mercantilização do corpo feminino nessas práticas.

A cientista política Carol Pateman (1993), em sua crítica ao “Contrato Sexual”, nos lembra que os contratos de liberdade na sociedade patriarcal frequentemente mascaram estruturas onde o corpo da mulher permanece performando para o usufruto masculino.

No mercado de interações liberais, a mulher é frequentemente erigida como o “ativo de maior valor” do casal: homens solteiros (single males) enfrentam restrições severas de entrada em clubes liberais, ao passo que casais dependem estritamente da presença e da performance feminina para obter validação social e trânsito na comunidade.

Essa dinâmica pode, inconscientemente, converter o corpo da mulher em uma moeda de troca narcísica para o parceiro de base. Como teoriza a intelectual feminista Bell Hooks (2021) ao discutir a mercantilização do desejo pelo capitalismo patriarcal, quando corpos são fetichizados para animar uma rotina desgastada, há o risco de uma “coisificação” do sujeito.

No swing, o prazer masculino muitas vezes se ancora na mecânica do voyeurismo ou do cuckoldry, onde ver a parceira ser possuída por outro revitaliza a virilidade do homem de base. O corpo da mulher corre o risco de ser capturado sob duas dimensões normativas:

  1. Capital Erótico e Estético: A exigência implícita de conformidade a padrões rígidos de beleza e juventude para que o casal mantenha seu “status” elevado no meio liberal.
  2. Submissão ao Contrato: Cenários clínicos em que a mulher performa a hipersexualidade e a ausência de ciúmes não por um desejo genuíno de abertura, mas como um mecanismo de defesa para satisfazer a fantasia do parceiro ou tamponar o medo do abandono.

Dessa forma, aplicando a perspectiva da performatividade de Judith Butler (2003), a identidade da mulher liberal pode oscilar entre a subversão das normas de gênero devedoras da monogamia e a submissão a uma nova matriz de inteligibilidade sexual, onde ela é obrigada a performar um gozo desimpedioso e instrumentalizado.

Portanto, o corpo feminino corre o risco de ser fetichizado sob duas óticas simultâneas:

  1. Mercantilização Estética: A exigência implícita de conformidade a padrões rígidos de beleza e juventude para que o casal mantenha seu “capital erótico” elevado no meio.
  2. Submissão ao Contrato: Cenários clínicos em que a mulher performa a hipersexualidade e a ausência de ciúmes não por um desejo genuíno de abertura, mas para satisfazer a fantasia do parceiro ou tamponar o medo de ser trocada fora do ambiente regulado.

A Mulher Como Sujeito do Desejo

Em muitos contextos liberais, a mulher:

  • É protagonista do próprio desejo
  • Escolhe seus vínculos
  • Define limites
  • Negocia acordos
  • Exerce autonomia sexual

Para muitas mulheres, o movimento representa:

  • Libertação de normas patriarcais
  • Desconstrução da ideia de posse masculina
  • Afirmação do corpo como território próprio
  • Expansão da identidade sexual

A Mulher Como Corpo Sob Múltiplos Olhares

Por outro lado, a cultura ainda carrega:

  • Padrões de beleza
  • Expectativas de disponibilidade
  • Erotização do corpo feminino
  • Desigualdades de gênero

Mesmo em ambientes liberais, a mulher pode ser:

  • Mais observada
  • Mais desejada
  • Mais cobrada
  • Mais comparada

Isso pode gerar:

  • Insegurança
  • Pressão estética
  • Sensação de objetificação
  • Conflitos internos entre desejo e expectativa

A ambivalência estrutural

A mulher pode viver simultaneamente:

  • Liberdade e vulnerabilidade
  • Autonomia e exposição
  • Protagonismo e pressão
  • Desejo próprio e desejo do outro

O movimento não é automaticamente libertador nem automaticamente opressor ele é ambivalente, como qualquer fenômeno humano.

Assim, o lugar da mulher no swing é intrinsecamente paradoxal. O movimento tanto pode servir como uma arena de liberação subjetiva contra as amarras da monogamia compulsória quanto pode mimetizar uma estrutura de consumo hipercapitalista, onde o corpo feminino permanece capturado como objeto central de validação do gozo alheio.

Cabe à escuta clínica psicanalítica decifrar, em cada caso singular, se a prática liberal representa um ato de autonomia ou uma nova modalidade de alienação para aquele sujeito.

Reflexão do Filme “O Convite” (2026)

As contradições e os dinamismos do movimento liberal encontram eco fidedigno na produção cinematográfica recente. No filme “O Convite” (The Invite, 2026), dirigido por Olivia Wilde, os protagonistas Joe (Seth Rogen) e Ângela (Olivia Wilde) vivem o declínio e o desgaste do casamento tradicional de longa data, capturados pela apatia e o silêncio.

O catalisador da narrativa é o jantar em que recebem os vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), um casal que performa abertamente o estilo de vida liberal.

A direção de Olivia Wilde utiliza a comédia dramática sexual para expor o “choque de realidades”. No início, Ângela assume a postura da civilidade puritana e do julgamento moral velado, tentando manter as aparências. No entanto, à medida que a personagem Piña (Penélope Cruz) expõe sua sexualidade magnética e livre de culpa, a arquitetura defensiva de Ângela colapsa.

A narrativa do filme ilustra com precisão a dialética feminista discutida anteriormente: Piña surge inicialmente como a personificação da mulher emancipada pró-sexo, dona de suas escolhas. Contudo, a tensão do jantar revela que a exposição contínua da intimidade do casal do andar de cima também opera como uma engrenagem que Joe e Ângela passam a cobiçar como fetiche, escancarando o quanto o corpo feminino é o centro gravitacional que sustenta o interesse erótico de ambos os casados.

O confinamento espacial do apartamento funciona como um território experimental onde o espectador testemunha que a abertura sexual pode tanto desatar os nós do recalque quanto criar uma profunda angústia de performance nos sujeitos que se veem confrontados com o imperativo do prazer liberal.

No filme “O Convite” (2026), os protagonistas Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) vivem o declínio e o desgaste do casamento tradicional de longa data, capturados pela apatia e a falta de comunicação.

O catalisador da narrativa é o jantar em que recebem os vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), um casal que performa o estilo de vida liberal.

Assim, o filme opera como um estudo de caso da cultura moderna. Ao expor os anfitriões à exuberância erótica e à liberdade sem culpa dos vizinhos, o roteiro remove o véu do preconceito inicial e coloca em xeque a própria funcionalidade da monogamia compulsória.

O jantar se converte em uma sessão terapêutica crua, onde o choque com o “modo liberal” não atua apenas como fetiche, mas obriga Joe e Ângela a confrontarem seus próprios ressentimentos reprimidos, o esvaziamento do olhar mútuo e o medo do envelhecimento relacional.

O filme não é sobre o movimento liberal em si, mas sobre dinâmicas humanas que atravessam qualquer prática relacional: desejo, medo, confiança, desgaste, limites, recalques, vergonha, fantasias, respeito, amor, entrega, insegurança, ciúmes, poder e vulnerabilidade.

Ele funciona como metáfora para compreender:

  • O que atrai sujeitos ao movimento
  • O que pode desestabilizá-los
  • O que exige elaboração psíquica profunda

A obra ilustra que o universo swinger funciona, para a cultura de massas, como um provocador existencial: ele questiona se a fidelidade física é um pilar real de sustentação do amor ou apenas um sintoma de insegurança estrutural.

Compreensão Psicanalítica e a Estrutura do Desejo

Para a psicanálise freudiana, o desejo humano é essencialmente polimorfo e avesso à domesticação civilizatória.

Em O Mal-Estar na Civilização, Freud postula que a troca de parcelas de liberdade por segurança é a fonte primordial da neurose. Sob essa ótica, a monogamia impõe uma renúncia pulsional severa, onde o sujeito frequentemente recalca fantasias de pluralidade sexual para manter a estabilidade social e o laço afetivo estável.

Na reconfiguração lacaniana, o desejo é estruturado como o “desejo do Outro” (LACAN, 2008). No arranjo swinger, a introdução de uma terceira ou quarta pessoa no circuito do gozo altera profundamente a dinâmica fantasmática do casal:

  • O Voyeurismo e o Exibicionismo Regulados: O prazer muitas vezes não reside apenas no contato físico com o terceiro, mas no olhar mediador. Ver o parceiro ser desejado e possuído por outro ou ser visto por ele nesse ato revitaliza o valor erótico do objeto de amor, que havia sido anestesiado pelo hábito doméstico.
  • O Manejo da Castração: Ao compartilharem o parceiro voluntariamente, os sujeitos tentam subverter e controlar a perda e a traição. O sofrimento da traição offline é neutralizado pelo fato de o ato ocorrer sob a égide do contrato e da presença vigilante do Eu.

A psicanálise não julga, ela escuta. A psicanálise pode ajudar sujeitos liberais ou swingers a:

  • Compreender o próprio desejo
  • Elaborar fantasias e medos
  • Fortalecer o self
  • Construir acordos autênticos
  • Integrar experiências complexas
  • Trabalhar inseguranças
  • Evitar falso self performático
  • Sustentar autonomia emocional
  • Simbolizar vivências múltiplas
  • Construir vínculos saudáveis e consensuais
  • A representação da prática liberal swinger como fonte de prazer genuíno acordado entre as partes e não como mecanismo de fuga ou catarse de angustias inconscientes

O Sofrimento Psíquico no Ambiente Liberal

Embora a filosofia de vida liberal se promova como emancipatória, ela não está isenta de produzir sofrimento psíquico intenso.

A clínica contemporânea indica que os arranjos não monogâmicos podem colapsar devido a fatores inconscientes que escapam ao controle dos contratos conscientes:

  • O Fracasso do Pacto Racional: Sentimentos de ciúme arcaico, inveja inconsciente e feridas narcisistas profundas podem emergir de forma incontrolável após a experiência de troca, desestruturando a identidade do sujeito que se julgava “suficientemente desconstruído”.
  • A Angústia de Performance: A exigência de manter-se receptivo, moderno, sexualmente ativo e imune ao ciúme gera uma nova forma de imperativo superegóico. O sujeito sofre por “não conseguir” desfrutar da liberdade prometida.
  • A Desestabilização do Vínculo de Base: Quando o sexo liberal deixa de ser um transbordamento da cumplicidade e passa a funcionar como uma tentativa desesperada de salvar um casamento falido (como sugerem as tensões iniciais de “O Convite”), o resultado costuma ser o desamparo e a aceleração da ruptura.

A Contribuição da Psicanálise no Manejo Clínico

O analista atua sem juízos de valor moral sobre as escolhas do paciente, mas mantém-se atento à verdade do inconsciente de cada sujeito. Não há sofrimento inerente ao movimento liberal. Mas há sofrimentos possíveis quando:

  • Acordos não são claros
  • Limites não são respeitados
  • Desejos não são elaborados
  • Inseguranças não são simbolizadas
  • Há pressão emocional
  • Há discrepância de desejo entre parceiros
  • Há uso da prática como fuga de conflitos internos

Possíveis manifestações:

  • Ciúme
  • Insegurança
  • Comparação
  • Medo de substituição
  • Vazio emocional
  • Confusão identitária
  • Exaustão afetiva
  • Conflitos de casal

Esses sofrimentos não são exclusivos do movimento liberal, são humanos.

A Intervenção Psicanalítica Contribui Estruturalmente de Três Formas:

  1. Desatar o Nó da Performance: Ajudar o paciente a separar suas reais demandas pulsionais das expectativas ideológicas do “movimento liberal”. O indivíduo tem o direito de descobrir que, talvez, sua economia libidinal funcione melhor na exclusividade, sem que isso signifique fracasso ou atraso cultural.
  2. Simbolização do Afeto Inominável: Dar voz e contorno à angústia, ao sentimento de rejeição ou ao ciúme que o sujeito tenta silenciar por medo de parecer possessivo perante o parceiro.
  3. Análise das Identificações Cruzadas: Investigar a quem serve a prática do swing na economia do casal. Muitas vezes, um dos cônjuges submete-se à dinâmica liberal apenas para evitar o abandono real do outro, configurando um processo de violência subjetiva silenciosa que precisa ser nomeado e elaborado no setting terapêutico.

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Considerações Finais

A filosofia liberal e o universo swinger revelam as fraturas e os tateamentos do homem contemporâneo na tentativa de conciliar os anseios irreconciliáveis de liberdade e pertencimento.

A filosofia de vida swinger e liberal é expressão da sexualidade contemporânea, marcada por liberdade, pluralidade e complexidade. Ela exige maturidade emocional, comunicação clara, ética, autenticidade e elaboração subjetiva.

A psicanálise e a sociologia ajudam a compreender esse movimento sem moralismos, reconhecendo sua potência e seus desafios. Quando há sofrimento, a clínica oferece espaço para integrar desejo, identidade e vínculo.

Longe de ser uma panaceia para as crises conjugais ou um mero desvio comportamental, a não monogamia consensual estabelece-se como um campo complexo de subjetivação.

Manifestações culturais como o filme “O Convite” (2026) jogam luz sobre o inevitável mal-estar que acompanha qualquer escolha amorosa.

À psicologia e, em especial, à psicanálise, cabe a tarefa ética de escutar o sofrimento singular produzido nessas novas fronteiras, garantindo que, sob qualquer contrato de exclusividade ou abertura, a integridade subjetiva e a verdade do desejo individual sejam preservadas.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. DUNKER, Christian. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2015.

EASTON, Dossie; HARDY, Janet. A Ética do Amor Livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras aventuras. Tradução de Regiane Winarski. São Paulo: Elefante, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 21.

HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2018.

HOOKS, Bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Todavia, 2021.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. PARISER, Eli. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Tradução de Diego Alfaro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.

PATEMAN, Carol. O Contrato Sexual. Tradução de Marta Avancini. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

TURKLE, Sherry. Alguém com quem conversar: os perigos da solidão conectada. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

WRIGHT, Robert. Terapia Cognitivo-Comportamental para Desafios Contemporâneos. Porto Alegre: Artmed, 2020.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

Filme:

O CONVITE. The Invite. Direção: Olivia Wilde. Roteiro: Will McCormack; Rashida Jones. Produção: Ben Browning; Megan Ellison; David Permut. Intérpretes: Seth Rogen; Olivia Wilde; Penélope Cruz; Edward Norton. Estados Unidos: Annapurna Pictures; A24, 2026. 1 filme (107 min).

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental

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