PSICOTERAPIA PSICANALÍTICA ONLINE DE BASE CONTEMPORÂNEA PARA TRATAMENTO DA AUTOLESÃO NA VIDA ADULTA E DO TRAUMA RELACIONAL

Os comportamentos de autolesão, especialmente a escarificação (cutting), têm sido tradicionalmente associados à adolescência. Entretanto, a prática clínica contemporânea demonstra que tais manifestações frequentemente persistem na vida adulta, assumindo configurações complexas relacionadas a traumas relacionais, dificuldades de regulação emocional, estados dissociativos, organizações borderline da personalidade e, em alguns casos, características associadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Sob a perspectiva da psicanálise contemporânea, a autolesão é compreendida não apenas como um comportamento sintomático, mas como uma forma de comunicação de experiências emocionais que não puderam ser adequadamente simbolizadas.

Este artigo discute os comportamentos autolesivos a partir das contribuições de Freud, Ferenczi, Winnicott, Bion, Fonagy, Schore, Bromberg, Ogden e Ferro, enfatizando a relevância da psicoterapia psicanalítica contemporânea no tratamento de adultos que apresentam autolesão.

Defende-se que a compreensão do fenômeno exige uma abordagem que contemple trauma, intersubjetividade, falhas de reconhecimento, dissociação e dificuldades na construção narrativa da experiência emocional.

Introdução

A autolesão consiste em comportamentos deliberados que produzem dano ao próprio corpo sem intenção suicida imediata. Entre suas formas mais frequentemente observadas estão cortes, queimaduras, escoriações, mordidas e outras práticas destinadas a provocar dor física ou lesões corporais.

Embora os estudos epidemiológicos apontem maior incidência durante a adolescência, a clínica contemporânea evidencia que a autolesão está longe de ser um fenômeno restrito a essa fase do desenvolvimento. Muitos adultos mantêm comportamentos autolesivos iniciados precocemente, enquanto outros apresentam episódios pela primeira vez diante de situações de intenso sofrimento emocional, perdas significativas, crises identitárias ou colapsos relacionais.

A compreensão tradicional frequentemente reduz a autolesão à impulsividade ou à busca de atenção. Entretanto, a psicanálise contemporânea propõe uma leitura muito mais complexa, considerando o sintoma como tentativa de organizar experiências emocionais que ainda não encontraram representação psíquica suficiente.

Sob essa perspectiva, o corpo torna-se palco de uma dor que não conseguiu transformar-se em pensamento, palavra ou narrativa.

A autolesão como fenômeno clínico contemporâneo

Na prática clínica, a autolesão raramente ocorre de forma isolada. Geralmente está associada a:

  • Experiências traumáticas;
  • Violência psicológica;
  • Abuso emocional;
  • Negligência afetiva;
  • Dificuldades de regulação emocional (meltdowns);
  • Estados dissociativos;
  • Sentimentos crônicos de vazio;
  • Vergonha intensa;
  • Conflitos relacionados à identidade.

Muitos pacientes relatam que o ato de ferir o próprio corpo produz alívio temporário para estados emocionais percebidos como insuportáveis.

Outros descrevem a autolesão como tentativa de interromper sentimentos de irrealidade, anestesia emocional ou desconexão subjetiva.

Nesses casos, o comportamento deixa de ser compreendido como simples destrutividade e passa a ser visto como uma tentativa de sobrevivência psíquica diante de experiências emocionais que ultrapassam os recursos disponíveis para sua elaboração.

Freud e a repetição do sofrimento não elaborado

As formulações de Sigmund Freud oferecem importantes fundamentos para compreender a autolesão.

Em Além do Princípio do Prazer (1920), Freud descreve a compulsão à repetição como tendência do psiquismo a reproduzir experiências traumáticas ainda não elaboradas.

Segundo o autor, determinados acontecimentos excedem a capacidade do aparelho psíquico de processar os estímulos recebidos. Como consequência, retornam sob a forma de sintomas, atos repetitivos ou manifestações corporais.

A autolesão pode ser compreendida como uma tentativa inconsciente de dar forma concreta a sofrimentos emocionais que permanecem sem elaboração adequada.

A repetição do ato autolesivo não representa necessariamente um desejo de destruição, mas pode constituir uma tentativa desesperada de transformar uma dor psíquica difusa em uma experiência delimitada e controlável.

Ferenczi e o trauma relacional

Entre os autores psicanalíticos, Sándor Ferenczi ocupa posição central na compreensão contemporânea da autolesão.

Ao estudar pacientes traumatizados, Ferenczi observou que a experiência traumática se torna particularmente devastadora quando a vítima não encontra acolhimento posterior para seu sofrimento.

Segundo sua teoria do desmentido traumático, o indivíduo é levado a duvidar de suas próprias percepções quando sua experiência emocional é sistematicamente negada ou minimizada.

Muitos adultos que apresentam comportamentos autolesivos relatam histórias marcadas por frases como:

  • “Você está exagerando”;
  • “Isso não aconteceu”;
  • “Você é muito sensível”;
  • “Não tem motivo para sofrer”.

A autolesão surge, frequentemente, como tentativa de conferir realidade a uma dor cuja existência foi repetidamente negada.

Ferenczi também descreve processos de identificação com o agressor, fenômeno frequentemente encontrado em pacientes que dirigem contra si mesmos sentimentos originalmente produzidos por relações abusivas.

Winnicott e as falhas na constituição do self

Donald Winnicott oferece uma das mais importantes formulações para compreender os comportamentos autolesivos.

Segundo o autor, a construção de um self coeso depende da existência de um ambiente suficientemente bom, capaz de acolher, sustentar e dar sentido às experiências emocionais do indivíduo.

Quando essas condições não estão presentes, podem surgir sentimentos persistentes de vazio, irrealidade e desintegração subjetiva.

Diversos pacientes adultos que realizam autolesões descrevem justamente experiências de vazio emocional intenso ou sensação de não se sentirem vivos.

Nessas circunstâncias, a dor física produzida pela autolesão pode funcionar como tentativa de recuperar um senso mínimo de existência subjetiva.

O corte deixa de representar apenas agressão ao corpo e passa a atuar como recurso desesperado para restaurar sentimentos de realidade emocional.

Bion e os ataques à capacidade de pensar

Wilfred Bion desenvolveu uma teoria fundamental para compreender os comportamentos autolesivos.

Segundo o autor, a mente necessita transformar experiências emocionais em pensamentos através da função alfa. Quando essa função encontra limitações, emoções intensas não conseguem ser simbolizadas e passam a ser experimentadas como elementos brutos, caóticos e excessivamente dolorosos.

A autolesão pode ser compreendida como consequência dessa falha momentânea da capacidade de pensar. O sofrimento não encontra palavras.

A mente não consegue metabolizar a experiência. O corpo passa então a comunicar aquilo que a linguagem ainda não consegue representar.

Sob essa perspectiva, a questão clínica central não é simplesmente eliminar o comportamento, mas ampliar a capacidade de simbolização do paciente.

Personalidade borderline e comportamentos autolesivos

A literatura clínica contemporânea identifica forte associação entre autolesão e Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). É importante ressaltar que nem toda autolesão indica um quadro borderline. Entretanto, os comportamentos autolesivos aparecem com frequência significativa nesse grupo de pacientes.

A organização borderline da personalidade caracteriza-se por:

  • Instabilidade afetiva;
  • Medo intenso de abandono;
  • Impulsividade;
  • Fragilidade identitária;
  • Sentimentos crônicos de vazio;
  • Dificuldades nas relações interpessoais.

Sob a perspectiva de Peter Fonagy, períodos de intenso sofrimento podem produzir colapsos temporários da capacidade de mentalização.

O indivíduo deixa de conseguir compreender simbolicamente o que sente.

A autolesão surge então como tentativa concreta de regular estados emocionais percebidos como intoleráveis.

Philip Bromberg acrescenta que muitos desses pacientes vivenciam importantes processos dissociativos. O corte pode funcionar temporariamente como tentativa de interromper sentimentos de fragmentação e restaurar uma sensação mínima de integração do self.

Nesse contexto, o comportamento autolesivo não deve ser compreendido como manipulação ou busca de atenção, mas como estratégia de sobrevivência emocional diante de estados internos devastadores.

Autolesão e adultos com Transtorno do Espectro Autista

A discussão contemporânea sobre autolesão exige atenção também aos adultos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Pesquisas recentes demonstram prevalência aumentada de comportamentos autolesivos nessa população, especialmente quando coexistem ansiedade, depressão, histórico de bullying, rejeição social ou sobrecarga sensorial.

Sob a perspectiva da psicoterapia psicanalítica contemporânea, é fundamental evitar interpretações simplistas ou excessivamente simbolizantes desses comportamentos.

Em muitos casos, a autolesão em indivíduos autistas relaciona-se à tentativa de regular estados de:

  • Hiperestimulação sensorial;
  • Ansiedade extrema;
  • Sobrecarga emocional;
  • Desconexão subjetiva;
  • Desorganização interna.

As contribuições de Bion, Ferro e Ogden ajudam a compreender que experiências emocionais e sensoriais excessivamente intensas podem não encontrar caminhos adequados de representação.

A terapia busca então ampliar recursos de simbolização e construção narrativa, favorecendo formas alternativas de expressão do sofrimento.

Fonagy e a ruptura da mentalização

Peter Fonagy propõe que a capacidade de compreender os próprios estados emocionais constitui um dos pilares da saúde mental.

Nos pacientes autolesivos, frequentemente observa-se comprometimento significativo dessa função. O sujeito experimenta emoções intensas, mas tem dificuldade para identificar precisamente o que está sentindo. A dor emocional é percebida como um estado indiferenciado de sofrimento.

Nessas circunstâncias, a autolesão funciona como tentativa de transformar emoções incompreensíveis em experiências corporais concretas.

A psicoterapia de base psicanalítica contemporânea online busca fortalecer a capacidade reflexiva, permitindo que sentimentos possam ser reconhecidos, nomeados e elaborados simbolicamente.

Schore e a neurobiologia da regulação emocional

Allan Schore aproximou a psicanálise das neurociências afetivas. Segundo suas pesquisas, experiências traumáticas precoces produzem importantes alterações nos sistemas neurobiológicos responsáveis pela regulação emocional.

Muitos pacientes autolesivos oscilam entre estados de hiperativação emocional e períodos de desligamento afetivo. A autolesão frequentemente atua como tentativa de regular essas oscilações extremas.

Compreender esse funcionamento é fundamental para evitar interpretações moralizantes ou reducionistas acerca do comportamento.

Sob essa perspectiva, a autolesão representa uma tentativa de comunicação de algo que ainda não pôde ser vivido simbolicamente.

O papel do terapeuta consiste em construir, junto ao paciente, uma linguagem emocional capaz de substituir progressivamente a necessidade de expressão através do corpo.

Vinhetas clínicas fictícias

Caso Júlia: autolesão após trauma relacional

Júlia, 29 anos, procurou atendimento após anos de comportamentos autolesivos iniciados na adolescência. Relatava histórico de violência psicológica familiar, bullying escolar e relacionamentos afetivos marcados por humilhações. Os cortes apareciam principalmente após episódios de rejeição interpessoal.

O trabalho terapêutico permitiu compreender que a autolesão funcionava como tentativa de regular sentimentos de abandono e vergonha que permaneciam insuficientemente simbolizados.

Caso Rafael: vazio emocional e funcionamento borderline

Rafael, 35 anos, apresentava episódios recorrentes de autolesão associados a intenso medo de abandono. Durante períodos de conflito conjugal, experimentava estados emocionais que descrevia como “insuportáveis”.

A partir das contribuições da psicanálise de base contemporânea, compreendeu-se que os cortes funcionavam como tentativa de interromper estados dissociativos e restaurar alguma sensação de controle emocional. Ao longo do processo terapêutico, desenvolveu gradualmente maior capacidade de reconhecer e elaborar seus estados afetivos sem recorrer à autolesão.

A contribuição da psicoterapia psicanalítica contemporânea

Na clínica psicanalítica contemporânea, a autolesão é compreendida como linguagem do sofrimento psíquico e não apenas como comportamento de risco.

O tratamento busca compreender:

  • Quais experiências emocionais antecedem o sintoma;
  • Quais traumas permanecem não elaborados;
  • Quais falhas de reconhecimento ocorreram ao longo da história do paciente;
  • Quais estados emocionais a autolesão procura regular.

O objetivo terapêutico não consiste apenas em impedir o comportamento, mas em construir recursos emocionais mais sofisticados para lidar com sofrimento, medo, abandono, vergonha e vazio.

A diminuição da autolesão tende a ocorrer como consequência do fortalecimento progressivo da capacidade de pensar, simbolizar e compartilhar experiências emocionais.

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Considerações finais

Os comportamentos autolesivos em adultos constituem fenômeno complexo e multifacetado, frequentemente associado a trauma relacional, dificuldades de mentalização, estados dissociativos, organizações borderline da personalidade e, em alguns casos, às especificidades emocionais e sensoriais presentes no Transtorno do Espectro Autista.

As contribuições de Freud, Ferenczi, Winnicott e Bion permitem compreender que a autolesão não representa simplesmente destrutividade ou impulsividade, mas uma tentativa de sobrevivência psíquica diante de experiências emocionais que ainda não encontraram representação adequada.

A psicoterapia psicanalítica contemporânea oferece um espaço privilegiado para transformar aquilo que inicialmente se inscreve no corpo em experiência pensável, narrável e emocionalmente integrada.

Dessa forma, promove não apenas a redução dos comportamentos autolesivos, mas a ampliação da capacidade do sujeito de viver, sentir e relacionar-se consigo mesmo de forma mais criativa e menos marcada pelo sofrimento.

Referências

BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

BROMBERG, Philip M. Standing in the spaces: Essays on Clinical Process, Trauma and Dissociation. New York: Routledge, 2015.

FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In: FERENCZI, S. Obras completas. São Paulo: Martins Fontes, 1992. v. 4.

FERRO, Antonino. Psicanálise como literatura e terapia. Rio de Janeiro: Imago, 2011.

FONAGY, Peter; GERGELY, György; JURIST, Elliot; TARGET, Mary. Affect Regulation, Mentalization and the Development of the Self. New York: Other Press, 2002.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.

SCHORE, Allan N. The Science of the Art of Psychotherapy. New York: W. W. Norton, 2012.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental

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